Em Itacaré...

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Um tio-avô meu, daqueles que na primeira infância são difíceis de processar, me disse uma vez que ‘o cruel do tempo é não ser soberano nem de si.’ Guardei as palavras com bem mais rapidez do que as feições do tal tio, e vez em quando retorno à profecia solene do coroa já um pouco delirante.

Agora, por exemplo, me pego pensando nessa história deitada na praia, os dedos do pé na areia e um mar daqueles ridículos, azul ciano, azul royale, azul que nem se sabia
capaz de enxergar. Claro que o cenário torna tudo promissor, mas é que aqui em Itacaré - estou em Itacaré - meu tio nunca pareceu tão lúcido.

Veja bem, Itacaré fica no sul da Bahia. Tem boa procedência, percebe-se. Tem também praia, rio e cachoeira, e outra profecia rodando por aí diz que tudo que é bom vem em trio. Em Itacaré, come-se boas frutas, as pessoas são amigáveis e os tempos se sobrepõem.

Aí mora a verdadeira garantia do sucesso: milhares de tempos se embrenham, entrelaçam e esguiam nessa cidade-barco. Cidade-porto. Cidade vai-e-vem, e fica também. Cheia de gente de longe, onde tudo é perto e vale parar.

Um é nascido e criado, vive de manga do pé e capoeira. Joga com outro de Recife, que trabalha num restaurante, se apaixonou por uma sueca. A sueca que veio dar aula de inglês e tem que voltar pra ontem. E hoje todo mundo se encontra no pôr-do-sol ou em outro clichê (assim chamariam os que vivem conscientes demais). Pros bem-aventurados de Itacaré, isso nada mais é que a deriva cotidiana- vivem como os animais ou as plantas, imortais por flutuarem desavisados para a morte.

Pode ser uma impressão de viajante desavisada. Deslumbrada. Quem sabe Itacaré tem um relógio interno afinadíssimo e eu, embasbacada na beira do rio, não captei. Mas vale apontar que não estou nem à toa, boa e velha turista comendo frutos do mar. Vim trabalhar e, atesto, aqui se trabalha bem! Mesmo assim, alguma coisa acontece nesse vórtex cheio de ladeiras, o tempo sobe e desce como pra descobrir onde o impulso deixa parar.

Então acho mesmo que ele estava certo, aquele meu tio, o tempo é um baita dum maria-vai-com-as-outras. Dança conforme a música, esse salafrário. Às vezes ralenta, quase pára, só pra voltar desesperado pedindo atenção. Um descompensado. Só que em Itacaré, acabou-se a tirania: um tempo saúda o outro, abraça como se conhecesse há décadas. Quiçá tocam um sambinha juntos, fazem falsos planos, e assim vão eles coexistindo, trocando carícias e farpas, enamorados nas ruas de paralelepípedo.

Afinal, pra quê ser soberano em Itacaré?

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Arte e palavras por: Catarina Lara Resende