Minha experiência com a ETIV do Brasil

Tainá, fotografada no jardim da nossa Casa de Voluntários.

Tainá, fotografada no jardim da nossa Casa de Voluntários.

Minha experiência aqui na ETIV tem sido um processo transformador que vem alterando minhas percepções mais fundamentais, tanto de uma perspectiva individual quanto coletiva.

Senti uma forte conexão com as meninas que frequentam as aulas oferecidas pela ONG logo no meu primeiro contato com elas, talvez por ser uma das poucas voluntárias brasileiras, ou porque eu me vejo em muitas delas.

Essa convivência tem me permitido observar a repetição dos mesmos conflitos que eu tive na infância, relacionados ao complexo de inferioridade que nos é imposto desde a mais tenra idade. Toda criança negra cresce sendo vítima de racismo e as marcas desse flagelo ficam impressas no nosso íntimo por toda vida.

Quando menos se espera, essas mesmas crianças estão repetindo o discurso e padrões racistas pelos quais somos bombardeados diariamente através da mídia e sociedade. Minhas aulas com as meninas têm funcionado quase como um laboratório de estudos e observação das construções sociais, e os efeitos dessa cultura opressora nunca foram tão aparentes para mim.

Durante uma das aulas de Inglês, uma das minhas alunas, que estava recortando imagens de pessoas das revistas para elaboração de uma atividade proposta, me chamou e disse: "Olha que mulher bonita, parece a Tia Tainá!". Por um momento fiquei feliz pelo elogio, até ver a foto a qual ela se referia: Uma mulher branca, com cabelos ondulados, lábios grossos, sorrindo de forma despretensiosa.

Não sei dizer exatamente o porquê, mas senti uma espécie de soco no estômago naquela hora. Me aproximei dela e disse: "Obrigada, mas você acha mesmo que eu me pareço com essa mulher?". Ela confirmou dizendo que sim e a outras meninas começaram a rir no mesmo instante, discordando dela.

Naquele momento, me lembrei de como durante muito tempo eu neguei minha identidade estética por achar que não era bonito (sociedade você é perversa!) e das tentativas contínuas de me "embranquecer". Olhei para minha aluna novamente e disse: "Você percebe que ela é branca e eu sou negra, né?".

Percebi que isso causou um pouco de choque, não só nela, mas nas meninas em geral. Para alguém que não tem a vivência necessária para perceber as sutilezas do racismo (e de várias outras questões também, como machismo, mas que devido ao nível de complexidade é impossível abordar tudo em um texto só) essa situação não teria importância alguma, mas é crucial ressaltar o principal problema aqui: Colorismo (atacando novamente!).

Colorismo é o tratamento prejudicial ou preferencial de pessoas da mesma raça, baseado exclusivamente no tom de sua pele.
— Alice Walker

O Colorismo (ou a pigmentocracia) é a discriminação pelo tom da pele, muito comum em países que sofreram a colonização europeia e/ou pós-escravocratas devido aos altos índices de miscigenação. De uma maneira simplificada, o termo quer dizer que, quanto mais pigmentada uma pessoa, mais exclusão e discriminação ela irá sofrer, criando uma situação de "exclusão da exclusão".

Pessoas negras de pele clara (assim como eu) encaram o desafio do processo de se descobrirem negras. Em uma sociedade que entende que ser belo é estar alinhado à padrões eurocêntricos, pessoas negras de pele claras são constantemente induzidas a se "embranquecerem" como se isso fosse algo positivo para elas, um privilégio.

Minha experiência pessoal foi difícil, dolorosa, e posso dizer que ainda é um processo em andamento. Por vezes me sinto rejeitada nas duas frentes: para meus amigos brancos, sou claramente negra; já para meus amigos negros, cabe questionamento. É como se eu vivesse em um limbo racial, pertencendo às duas esferas, mas ao mesmo tempo não fazendo parte de nenhuma. Talvez a sensação de soco no estômago no momento em que minha aluna associou minha aparência a de uma mulher branca tenha origem na minha própria insegurança relacionada a minha identidade racial.

Por essa razão é essencial que se discuta tópicos como padrões de beleza, discriminação, etc., com as crianças. Parece um assunto complexo - e de fato é - mas é possível dialogar com os nossos pequenos utilizando uma linguagem apropriada para cada faixa etária. Se o objetivo é erradicar o problema, o processo de empoderamento e conscientização deve começar desde cedo, sobretudo por ser uma fase crucial para a desenvolvimento da autoestima.

Durante o texto focamos mais na parte estética devido ao que aconteceu durante a aula, mas o empoderamento aqui vai muito além da estética. Aqui na ETIV nós temos projetos que tratam dessas questões como "Women's Empowerment" e o "Girl's Literacy Club" que focam na emancipação e conscientização de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social, visando torná-los cidadãos ativos em suas comunidades e que buscam transformar suas realidades.

Logo, me orgulho de poder dizer que contribui com o trabalho dessa organização e estou ansiosa pelos ensinamentos que as minhas duas últimas semanas aqui ainda irão me proporcionar!

Tainá Costa